New energy projections suggest that the country better known for its nuclear fleet is preparing an unusually fast push into renewables, betting big on solar roofs, agrivoltaics and offshore wind farms to overhaul its power system.
A França prepara uma expansão massiva da energia limpa
De acordo com dados da consultora GlobalData, a capacidade instalada de energia renovável em França poderá saltar de 59,1 gigawatts (GW) em 2024 para 163,1 GW em 2035. Isto significa quase triplicar a capacidade em apenas onze anos, com um crescimento médio anual próximo de 10%.
A França está no caminho para quase triplicar a capacidade renovável até 2035, impulsionada sobretudo por uma implementação agressiva de energia solar.
Esta aceleração faria com que as renováveis atingissem cerca de 72% da capacidade total instalada de produção elétrica no país até 2035. A energia nuclear continuaria a fornecer uma grande parte da eletricidade efetivamente produzida, graças à elevada produção dos reatores existentes, mas passaria a operar num sistema cada vez mais moldado pela intermitência da energia solar e eólica.
A energia solar torna-se o principal motor de crescimento
A maior mudança está no setor solar. Prevê-se que a capacidade fotovoltaica francesa dispare de 30,5 GW em 2024 para 111,2 GW em 2035. Isto faria da energia solar a principal fonte de novas adições de capacidade em França, ultrapassando até o setor hidroelétrico, há muito dominante, em termos de potência instalada.
Dos telhados à agrivoltaica
Este boom não virá apenas de centrais solares clássicas em terrenos abertos. A política está a orientar-se para modelos mais diversificados:
- Autoconsumo em telhados: famílias e empresas a instalar painéis para reduzir faturas e vender o excedente;
- Coberturas em parques de estacionamento: grandes “sombras” solares sobre áreas de estacionamento, agora incentivadas por lei para grandes espaços comerciais;
- Agrivoltaica: instalações solares combinadas com culturas agrícolas ou pecuária, oferecendo aos agricultores uma fonte adicional de rendimento.
Estes formatos ajudam a reduzir conflitos de uso do solo, ao recorrerem a superfícies já impermeabilizadas ou de uso múltiplo. Também encurtam os prazos dos projetos face a grandes parques em áreas virgens, um fator crucial na aposta francesa em acelerar a execução.
A energia eólica divide-se entre terra e mar
A eólica continuará a ser o segundo pilar-chave da estratégia renovável francesa, mas com trajetórias distintas em terra e no mar.
Eólica em terra: mais lenta, mas ainda a crescer
A capacidade instalada de eólica onshore deverá crescer de 22,9 GW para 36 GW até 2035. O crescimento continua, mas a um ritmo mais moderado do que o solar, refletindo oposição local e processos de licenciamento demorados. Muitos projetos enfrentam recursos judiciais ligados a ruído, impacto paisagístico ou biodiversidade.
Uma parte central da estratégia é o repowering: substituir turbinas mais antigas e pequenas por menos unidades, mais altas e mais eficientes, nos locais já existentes. Isto permite aumentar a produção sem abrir grandes novas áreas à eólica e ajuda a conquistar autarquias já familiarizadas com a tecnologia.
Eólica offshore: de marginal a estratégica
O verdadeiro salto na eólica vem do mar. A capacidade eólica offshore em França poderá subir de apenas 1,5 GW hoje para cerca de 10,7 GW em 2035. A maior parte desse crescimento é esperada ao largo das costas da Bretanha e da Normandia, onde vários projetos de grande escala já foram adjudicados.
A eólica offshore, quase invisível no mix elétrico francês atual, está prestes a tornar-se um pilar estratégico a meio da década de 2030.
As receitas destes projetos são, em grande medida, asseguradas através de contratos por diferença (CfD), um mecanismo em que o Estado garante um preço de referência para a eletricidade. Isto reduz o risco para os investidores e permite custos de financiamento mais baixos, algo crítico para parques offshore com grande intensidade de capital.
A energia nuclear mantém-se estável num mix em mudança
Enquanto as renováveis avançam, a capacidade nuclear em França deverá manter-se globalmente estável, subindo ligeiramente de 61,4 GW para cerca de 63 GW até 2035. Esta mudança tem mais a ver com manutenção do que com expansão.
Dois principais fatores sustentam este patamar:
- O programa de extensão de vida útil “Grand Carénage” para a frota existente;
- O arranque de seis novos reatores EPR2, embora as datas exatas de entrada em funcionamento permaneçam incertas.
Na prática, a nuclear continuará a fornecer uma grande fatia da eletricidade de França porque os reatores normalmente operam muitas mais horas por ano do que o solar ou a eólica. No entanto, a sua quota na capacidade total instalada diminuirá à medida que milhares de megawatts de painéis e turbinas sejam ligados à rede.
Quadro político: sinais mais claros, estrangulamentos persistentes
Do lado das políticas públicas, França tem agora um roteiro mais claro do que em anos anteriores. O Plano Nacional de Energia e Clima atualizado (NECP 2024) e o mais recente programa plurianual de energia (PPE) definem a escala e o calendário da expansão por tecnologia.
O governo também passou de tarifas garantidas clássicas para leilões competitivos do tipo CfD em muitos projetos renováveis, procurando conter custos enquanto oferece estabilidade de receitas. Um plano de hidrogénio de 7 mil milhões de euros e grandes investimentos na rede por parte do operador de transporte RTE completam o quadro.
O panorama político dá agora aos investidores melhor visibilidade, mas a burocracia e as limitações da rede continuam a travar a execução no terreno.
Os atrasos no licenciamento continuam a ser um grande obstáculo, especialmente para a eólica onshore. Disputas de ordenamento do território, avaliações ambientais e contestações em tribunal prolongam os prazos dos projetos por vários anos. Em regiões de elevada atividade como a Occitânia e a Nova Aquitânia, as ligações à rede também se tornaram um gargalo, com alguns projetos a enfrentar longas esperas para se conectarem.
A congestão da rede leva ao corte de produção (curtailment) - quando os operadores têm de reduzir a produção ou desligar turbinas e centrais solares porque a rede não consegue absorver toda a energia. Isto já está a acontecer com mais frequência, um sinal de que a capacidade de produção pode crescer mais depressa do que as melhorias na rede de transporte se nada mudar.
Como a França se compara com os seus vizinhos europeus
Mesmo com esta trajetória ambiciosa, a França não será a maior potência renovável da Europa em 2035. A Alemanha, a Espanha e a Itália também planeiam expansões significativas.
| País | Capacidade renovável 2024 (GW) | Projeção 2035 (GW) | Principais tecnologias |
|---|---|---|---|
| França | 59,1 | 163,1 | Solar, eólica, hídrica |
| Alemanha | 147 | 215 | Solar, eólica onshore |
| Espanha | 73 | 160 | Solar, eólica, armazenamento |
| Itália | 63 | 130 | Solar, eólica, bioenergia |
| Países Baixos | 37 | 70 | Eólica offshore, solar |
| Dinamarca | 12 | 35 | Eólica onshore e offshore |
A particularidade francesa está na combinação de uma grande frota nuclear, fortes recursos hidroelétricos e uma viragem tardia, mas agora rápida, para solar e eólica. Países como os Países Baixos e a Dinamarca, embora muito menores, deverão continuar a liderar na eólica offshore graças a portos dedicados e a uma aceitação social mais ampla.
O que esta mudança significa para consumidores e empresas
Se estas projeções se concretizarem, as famílias e empresas francesas enfrentarão um panorama energético diferente até 2035. As faturas de eletricidade poderão depender mais do momento do consumo, com energia barata durante períodos de sol ou vento e preços mais elevados quando as condições forem desfavoráveis.
Isto cria oportunidades para:
- Eletrodomésticos inteligentes e veículos elétricos (VE) que carregam quando a eletricidade é abundante;
- Armazenamento em baterias em casas e unidades industriais para reduzir picos e garantir reserva;
- Acordos de compra de energia (PPAs) corporativos, à medida que as empresas fixam preços de longo prazo diretamente com projetos solares e eólicos.
Para agricultores e comunidades rurais, projetos agrivoltaicos e rendas de terrenos para turbinas eólicas podem gerar novas fontes de rendimento, mas também levantam questões sobre alterações paisagísticas e tomada de decisão local.
Conceitos-chave por detrás dos números
Alguns termos técnicos estão no centro destas projeções. “Capacidade instalada” (expressa em GW) refere-se à potência máxima que as centrais poderiam produzir num determinado momento. Não significa que produzam esse valor continuamente. A produção solar, por exemplo, varia com a luz do dia e o estado do tempo.
O “fator de capacidade” mede quanta energia uma central efetivamente gera ao longo de um ano, em comparação com o seu máximo teórico. Os reatores nucleares franceses tendem a ter fatores de capacidade elevados porque podem operar quase continuamente. As centrais solares e eólicas geram menos, em média, face ao seu pico de potência, mas são mais baratas de construir e podem ser instaladas mais depressa.
Outro conceito é o repowering, já central nos planos franceses de eólica em terra. Em vez de construir parques totalmente novos, os promotores substituem turbinas antigas por novas no mesmo local, reduzindo a pegada ambiental e melhorando a aceitação local, ao mesmo tempo que aumentam significativamente a produção.
Riscos, benefícios e o que pode mudar a trajetória
Os benefícios desta aceleração são claros: menores emissões de gases com efeito de estufa, menor dependência de combustíveis fósseis importados e, potencialmente, preços de eletricidade mais estáveis no longo prazo à medida que os riscos associados a combustíveis diminuem. Do ponto de vista industrial, o impulso pode estimular produção nacional de componentes solares, infraestruturas eólicas, cabos e equipamento de rede.
Persistem, contudo, riscos. Atrasos em novas construções nucleares ou nos trabalhos de extensão de vida útil podem apertar a oferta na década de 2030. As modernizações da rede podem ficar atrás das instalações renováveis, levando a mais cortes de produção e a frustração dos investidores. A resistência social a novas infraestruturas, tanto em terra como no mar, pode atrasar ou remodelar projetos.
A análise de cenários feita por analistas costuma destacar um intervalo, e não um único caminho fixo. Num cenário de alta ambição, reformas mais rápidas no licenciamento, aceleração de projetos de rede e forte apetite dos investidores poderiam levar a França além do valor de 163 GW. Num percurso mais cauteloso, bloqueios legais e problemas nas cadeias de abastecimento poderiam deixar parte da capacidade prevista apenas no papel.
Por agora, a direção é clara: a França quer acelerar como nunca nas renováveis, não para substituir a sua frota nuclear de um dia para o outro, mas para construir um sistema mais flexível e diversificado, capaz de lidar simultaneamente com riscos climáticos, choques geopolíticos e o aumento da eletrificação.
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