O almoço de domingo, a toalha de mesa de plástico, o cheiro a carne assada e o fumo do cigarro suspenso no ar. O teu pai quase não fala, a tua mãe levanta os pratos em silêncio, a televisão tapa os vazios com imagens granuladas do telejornal. Ninguém pergunta como te sentes. Ninguém sequer tem essa palavra. Se cresceste nos anos 60 ou 70, esta cena pode morar algures nos teus ossos: meia memória, meio reflexo muscular.
Avançando para hoje, e os psicólogos percorrem a mesma infância e usam palavras que os teus pais nunca tiveram: trauma, hiperindependência, negligência emocional, estratégias de sobrevivência. Aquilo a que a tua geração chamava “endurecer” é agora dissecado em podcasts e em consultórios de terapia. A parte estranha? Muito dessa “dureza” virou forças reais. Só que não da forma que se pensava na altura.
E é aí que a história fica desconfortável.
As sete “competências de dureza” que afinal eram mecanismos de sobrevivência
Se foste criado nos anos 60 ou 70, provavelmente aprendeste cedo a engolir os sentimentos e seguir em frente. Chorar era “coisa de bebés”. Falar de medos? Um luxo para o qual ninguém tinha tempo entre turnos de trabalho, manchetes da Guerra Fria e pais que estavam apenas a tentar não se afundar. A linguagem da época era simples: ou eras forte, ou eras fraco. Ninguém perguntava o que essa “força” te estava a custar.
A psicologia de hoje tem outro vocabulário. Chama a essa dureza antiga “estratégias adaptativas”: maneiras de as crianças se protegerem quando o seu ambiente não consegue - ou não quer - proteger o seu mundo interior. O resultado? Uma geração com músculos mentais impressionantes - resiliência, independência, responsabilidade - construídos sobre alicerces que às vezes doem em silêncio.
Pega, por exemplo, no silêncio emocional. Muitas casas funcionavam com um guião básico: comida na mesa, teto por cima da cabeça, queixas proibidas. Um dia mau na escola? “Hás de sobreviver.” Sofrer bullying? “Defende-te.” Se os teus pais tinham sobrevivido a guerra, pobreza ou a uma educação religiosa rígida, a tua tristeza simplesmente não entrava no radar deles.
Por isso aprendeste rapidamente sete “forças”: tornaste-te a criança que não chorava, o adolescente que resolvia os próprios problemas, o jovem adulto que seguia com a vida acontecesse o que acontecesse. Talvez tomasses conta dos irmãos mais novos, talvez arranjasses trabalho aos 15, talvez aprendesses a “ler a sala” porque uma palavra errada podia acender uma discussão. Por fora, parecia maturidade. Por dentro, era vigilância.
Os psicólogos hoje apontam que muitos desses comportamentos correspondem diretamente a respostas ao trauma. Hiperindependência como escudo contra a desilusão. Vontade de agradar a toda a gente como forma de ficar seguro. Produtividade implacável para evitar sentir seja o que for. Isto não são fraquezas; são desenhos brilhantes e inconscientes, criados por uma criança que teve de sobreviver emocionalmente por conta própria.
A reviravolta é que o mundo adulto muitas vezes recompensa estes padrões. As empresas adoram o trabalhador que nunca diz que não. As famílias apoiam-se naquela pessoa fiável que nunca desaba. A sociedade aplaude quem “simplesmente aguenta e segue”. Isso torna ainda mais difícil perceber que a força veio de uma ferida, não de liberdade.
De “cala-te e aguenta” para força consciente: o que muda agora
Uma mudança prática começa pela linguagem. Em vez de perguntares “Porque é que eu sou assim?”, podes perguntar “Onde é que eu aprendi a sobreviver desta maneira?” Essa pequena mudança leva-te da autoacusação para a curiosidade. Se cresceste a ouvir que tinhas de ser grato e parar de te queixar, até dar nome à tua dor pode parecer um ato de rebeldia.
Um método simples é escolheres uma dessas sete características - talvez a tua independência extrema ou o cuidar automático de toda a gente - e recuares na história. Quando te lembras de começar a fazer isto? Quem te elogiava por isso? Quem se sentiria desconfortável se fizesses o contrário? Estas perguntas não apagam a força. Permitem-te possuí-la, em vez de ela te possuir a ti.
A armadilha comum para esta geração é tentar “consertar-se” como se fosse mais uma tarefa. Mais livros de autoajuda, mais rotinas, mais pressão para curar de forma perfeita. Sejamos honestos: ninguém consegue fazer isto todos os dias. Em algumas manhãs, só queres café e silêncio, não trabalho com a criança interior.
Uma abordagem mais suave é reparares nas regras antigas que ainda correm na tua cabeça. “Não incomodes os outros.” “Não sejas dramático.” “Trabalha mais.” Sempre que uma dessas frases aparecer, acrescenta mentalmente: Essa era a regra na minha infância, não necessariamente na minha vida adulta. Não estás a trair os teus pais por atualizares o guião. Estás a honrar a criança que foste, que fez o melhor que pôde com as ferramentas que tinha.
A psicóloga Lindsay Gibson, que estuda pais emocionalmente imaturos, diz muitas vezes que os filhos adultos dessa era “cresceram depressa por fora e ficaram sós por dentro”. Essa única frase capta a estranha vida dupla que muitos baby boomers e pessoas da Geração X ainda vivem sem a nomear.
- Resistência silenciosa – Em criança, aprendeste a não te queixares. Em adulto, isso pode tornar-se uma calma discreta e poderosa em situações de crise, mas também esconde a tua necessidade de apoio.
- Hiper-responsabilidade – Ser o “pequeno adulto” em casa transformou-se em fiabilidade e ética de trabalho, mas faz com que o descanso pareça quase perigoso.
- Entorpecimento emocional que parece força – Cortar o contacto com os sentimentos protegeu-te em criança. Hoje, pode tornar a alegria, a intimidade e o descanso genuíno estranhamente distantes.
Cada uma destas “competências” pode evoluir. Não têm de ser desmanteladas. Apenas reescritas.
E se as tuas “forças do trauma” forem, afinal, o teu ponto de partida?
Há uma revolução silenciosa quando alguém criado no “não se fala disso” finalmente admite: “Isto foi difícil.” Não para acusar, não para se lamentar, simplesmente para dizer a verdade em voz alta. Muitas pessoas dos anos 60 e 70 estão a chegar a esse momento agora - muitas vezes empurradas pelo burnout, por um susto de saúde, ou por verem os próprios filhos sofrer de formas assustadoramente familiares.
A verdade simples é que essas sete forças que construíste - autossuficiência, garra, controlo emocional, lealdade, responsabilidade, adaptabilidade, vigilância - não são o problema. São a prova de que te adaptaste, de forma brilhante, a um tempo e a uma cultura que preferiam estoicismo a suavidade. A questão é se ainda queres viver segundo essas mesmas regras.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Reconhecer “forças” como sobrevivência | Traços como hiperindependência, vontade de agradar e entorpecimento emocional começaram como proteção na infância | Reduz a vergonha e a autoculpabilização, abre a porta a uma auto-compreensão mais compassiva |
| Reenquadrar, não apagar, a dureza | Esses traços podem ser moldados em forças conscientes em vez de defesas automáticas | Permite manter o que funciona - resiliência, calma, fiabilidade - enquanto alivia o que magoa |
| Atualizar regras internas | Reparar e questionar crenças herdadas como “não sejas um peso” ou “sentimentos são fraqueza” | Cria espaço para relações mais saudáveis, descanso e segurança emocional na vida adulta |
FAQ:
- Pergunta 1 Como sei se a minha “dureza” é, na verdade, uma resposta ao trauma? Repara se a tua força parece automática, exaustiva ou se entras em pânico quando tentas parar. Se dizer que não, pedir ajuda ou mostrar emoção te faz sentir culpa ou insegurança, essa “dureza” provavelmente começou como proteção.
- Pergunta 2 Não estaremos apenas a patologizar uma educação normal, mais rígida? Nem toda a infância rígida ou distante é trauma. O objetivo não é rotular o teu passado como “mau”, mas ver com honestidade onde as necessidades emocionais foram ignoradas ou minimizadas - e como isso ainda molda a tua vida hoje.
- Pergunta 3 Posso manter a minha resiliência sem remexer em memórias dolorosas? Não tens de reviver tudo. Mesmo atos pequenos - nomear padrões, permitir que uma pessoa de confiança veja o teu lado mais vulnerável, fazer pausas sem culpa - começam a separar resiliência de pura sobrevivência.
- Pergunta 4 E se os meus pais “tiveram pior” e eu me sinto egoísta por falar dos meus sentimentos? Duas coisas podem ser verdade. Os teus pais podem ter sofrido profundamente e feito o melhor que conseguiram, e tu podes, ainda assim, carregar necessidades emocionais por satisfazer. Reconhecer as tuas não apaga a história deles.
- Pergunta 5 Não é tarde demais para mudar estes padrões se já estou nos 50 ou 60? A neurociência é clara: o cérebro mantém plasticidade ao longo da vida. Pessoas de todas as idades aprendem a estabelecer limites, a sentir mais e a suavizar defesas antigas. A mudança pode ser mais lenta e mais discreta, mas é absolutamente possível.
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