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Adorados ou manipuladores: 6 hábitos de avós muito queridos pelos netos, segundo a psicologia

Avó e neto brincam no chão com jogo de blocos coloridos, rodeados por livros e fotos, em sala iluminada.

Sábado à tarde no parque, um rapazinho arrasta os pés ao lado do pai. Parece aborrecido, colado a um gelado que se derrete, até que surge à entrada uma mulher de cabelo prateado. O corpo dele muda por completo. Larga a corneta, corre e atira-se para os braços dela, a gritar: “Avóóó!” como se ela tivesse acabado de regressar de uma longa viagem. Dez minutos depois, ela está sentada no banco, a ouvir, a rir, a fazer-lhe perguntas como se ele fosse a pessoa mais fascinante do mundo. O pai observa, meio divertido, meio intrigado. Porque é que esta criança se abre tanto mais com ela do que com ele?

Será apenas uma “avó divertida” ou estará a acontecer algo mais profundo?

1. Oferecem presença incondicional, não atenção condicionada

Os psicólogos repetem-no vezes sem conta: aquilo de que as crianças mais se lembram não são os brinquedos, é a sensação de serem realmente vistas. Os avós que são profundamente amados têm um superpoder discreto. Quando estão com os netos, estão mesmo ali. Telemóvel virado para baixo, televisão baixa, olhos ao nível da criança. Não interrompem com conselhos de três em três segundos. Deixam a criança acabar a história, mesmo quando dá voltas, mesmo quando soa trivial aos ouvidos de um adulto. Este simples “tenho tempo para ti” é uma forma de oxigénio emocional. As crianças sentem-no de imediato.

Imagine uma rapariga de nove anos a chegar da escola, mochila meio aberta, faces um pouco coradas. Os pais estão a trabalhar, stressados, a ouvir pela metade entre dois e-mails. A avó está na cozinha, a descascar cenouras. A rapariga senta-se e suspira: “Hoje foi horrível.” Muitos adultos responderiam: “Estás bem, come qualquer coisa.” Esta avó limpa as mãos, encosta-se à bancada e diz apenas: “Conta-me.” Vinte minutos depois, a rapariga já desdobrou o dia inteiro. A sopa de cenoura vai atrasar-se, mas a relação acabou de ganhar um tijolo de confiança. Anos mais tarde, é este tipo de cena que os netos descrevem com os olhos a brilhar.

A psicologia chama a isto “vinculação segura” em ação. A criança sente que as suas emoções são bem-vindas, não julgadas nem minimizadas. Isso não significa que o avô ou a avó concorde com tudo ou que nunca estabeleça limites. Significa que a criança não tem de “atuar” para merecer interesse. Com o tempo, esta presença constante torna-se uma espécie de casa emocional. As crianças correm para ela quando a vida parece demasiado rápida, demasiado barulhenta, demasiado exigente. Aqui, o amor sabe a poltrona macia, não a quadro de pontuações.

2. Definem limites suaves em vez de comprarem afeto

Alguns avós confundem amor com excesso. Demasiados presentes, demasiado açúcar, zero limites. À superfície, parecem adorados. As crianças gritam de alegria quando veem o esconderijo dos doces ou o novo videojogo. No entanto, os psicólogos notam outro grupo de avós, muitas vezes menos “espetacular”, que se torna silenciosamente insubstituível. Oferecem mimos, sim, mas dentro de uma moldura. Uma bolacha e depois jantar. Um desenho animado e depois rua. A mensagem é subtil, mas poderosa: “Eu mimo-te, mas também te protejo.” A criança percebe que este adulto não está a tentar comprar o amor dela, apenas a cuidar.

Imagine um avô no supermercado com o neto de cinco anos. O miúdo vê um brinquedo gigante de plástico e começa a entoar: “Quero, quero, quero.” As pessoas olham. O caminho mais fácil é comprar e evitar a cena. Este avô agacha-se, olha o rapaz nos olhos e diz com calma: “Hoje vamos comprar pão e fruta. Podemos tirar uma foto ao brinquedo e pensar nele para o teu aniversário.” Aparecem lágrimas, depois uma pequena tempestade, e seguem caminho. Nessa noite, o miúdo conta orgulhoso aos pais: “O avô disse que eu fui forte por parar.” O limite tornou-se uma história de coragem, não de frustração.

Psicologicamente, isto é o oposto de manipulação emocional. Quando o amor é trocado por objetos ou por indulgência exagerada, as crianças aprendem que o afeto é algo que se compra ou se perde. Os avós que se atrevem a dizer não, mas com ternura, enviam um sinal diferente: “Tu és mais importante do que o teu desejo imediato.” Isto constrói respeito, não apenas entusiasmo. A criança pode protestar no momento, mas algures no fundo cresce uma sensação de segurança. Sente-se orientada, não usada.

3. Respeitam as regras dos pais em vez de competirem pelo coração da criança

Uma das linhas mais delicadas que os avós percorrem é entre “parceiro” e “rival” dos pais. Os avós amados quase sempre escolhem claramente o seu lado. Podem não concordar com todas as regras, mas não as minam à frente da criança. Hora de deitar às 21h em casa? Não se gabam de noites de cinema até à meia-noite. Sem doces antes do jantar? Não enfiam às escondidas um rebuçado com uma piscadela que diz “não contes à mãe”. Entendem uma coisa: a segurança para a criança vem da coerência. Os adultos podem discutir divergências noutro lugar, longe de ouvidos pequenos.

Considere esta cena. Uma mãe pede à própria mãe para não dar refrigerante ao filho de seis anos. No almoço de família seguinte, o rapaz sussurra à avó: “Não posso beber só um bocadinho, mas sem dizer?” Este é um momento definidor. Uma avó responderá: “Claro, não dizemos à tua mãe, fica o nosso segredo”, criando emoção mas também uma pequena traição. Outra dirá baixinho: “Apetece-te mesmo, não é? A tua mãe disse que não por agora, por isso vamos encontrar outro mimo juntos.” Mantém a aliança com o progenitor, não com o segredo. A criança pode fazer beicinho cinco minutos, mas a mensagem a longo prazo fica cristalina.

Os terapeutas familiares veem isto repetidamente. Quando os avós fazem o papel de “rebelde fixe” contra os pais, disparam conflitos de lealdade. A criança sente-se dividida, culpada, por vezes poderosa de uma forma pesada demais para a idade. As crianças não deviam ter de escolher entre os adultos que amam. Os avós que são profundamente acarinhados agem como ponte, não como cunha. Podem ser mais flexíveis, mais brincalhões, mas não atacam a base. Isto protege a estabilidade emocional da criança e, paradoxalmente, também reforça o lugar especial deles na família.

4. Partilham histórias, não culpa

Os avós de quem os netos falam quando são adultos são, muitas vezes, grandes contadores de histórias. Não dizem apenas “no meu tempo é que era”. Pintam quadros com palavras. O cheiro do carvão no inverno. O medo durante os exames. O primeiro emprego embaraçoso. Não usam o passado para julgar o presente; usam-no para se ligarem. “Quando tinha a tua idade, também tinha medo do escuro”, “Eu também discutia com os meus pais.” A história deles torna-se um mapa, não uma arma. As crianças adoram porque dá espessura ao tempo e torna o avô ou a avó humano, não apenas “velho”.

Agora imagine o oposto. Cada visita começa com: “Nunca vens o suficiente”, “Os miúdos de hoje não respeitam nada”, “Se gostasses mesmo de mim, ligavas mais.” A culpa substitui a curiosidade. O afeto transforma-se num teste impossível de passar. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. A maioria dos avós oscila entre calor e falta de jeito. Ainda assim, aqueles que os netos guardam na memória inclinam-se muito mais para partilhar do que para queixar-se. Podem dizer: “Tenho saudades quando não estás cá, queres ver esta foto parva minha aos dezasseis?” A mesma saudade, outro tom.

O psicólogo Karl Pillemer, da Universidade de Cornell, resumiu-o numa entrevista: “Os adultos mais velhos que cultivam alegria e narrativa, em vez de amargura e pressão, não só mantêm os laços familiares vivos. Criam legados emocionais que lhes sobrevivem durante décadas.”

  • Conte histórias específicas – Não “A vida era difícil”, mas “Tínhamos um par de sapatos para todo o inverno, e eu escondia os meus debaixo da cama como um tesouro.”
  • Pergunte ao seu neto sobre as “pequenas histórias” dele – Uma discussão com um amigo, uma vitória num jogo, um sonho estranho.
  • Substitua a culpa por convites – “Gostava muito de te ver; quando é que podemos combinar algo que funcione para ti?”
  • Use fotografias ou objetos como gatilhos – Um relógio antigo, um cachecol, um caderno de receitas podem abrir conversas entre gerações.
  • Mantenha um tema fora de limites: contabilidade – Não conte chamadas falhadas, mensagens atrasadas ou visitas esquecidas.

5. Aceitam a mudança dos laços em vez de se agarrarem à “criança pequena”

Há um luto secreto que quase todos os avós carregam: o momento em que o pequeno que saltava para os seus braços começa a afastar-se. Chega a adolescência, multiplicam-se os ecrãs, o tempo encolhe. Os avós amados não negam esta mudança. Fazem o luto em privado e depois ajustam-se. Deixam de forçar abraços, pedem autorização antes de publicar fotos, aprendem duas ou três palavras básicas do jogo ou da app de que o adolescente gosta. Acima de tudo, atualizam a relação. Menos colo, mais conversa. Menos visitas surpresa, mais mensagens respeitosas.

Do ponto de vista psicológico, esta flexibilidade é sinal de amor maduro. Não se agarra a uma fase; caminha-se ao lado de uma pessoa. Alguns avós recusam isto. Insistem em beijinhos, criticam a roupa, gozam com playlists. O jovem acaba por visitar com um sorriso defensivo, à espera do sermão. Outros seguem outro caminho. Podem dizer: “Já não gostas de abraços, pois não? Tudo bem, então dá cá um ‘high five’.” Ou: “Explica-me este meme, eu não percebo nada disto.” O adolescente desata a rir, e aparece uma nova ponte. O avô ou a avó não fica preso na nostalgia; fica curioso.

Os psicólogos falam de “adaptação relacional”. Os laços que sobrevivem ao tempo são os que aceitam a transformação. Um avô amado sabe que o amor não desaparece só porque os formatos mudam. Uma mensagem no WhatsApp pode levar tanta ternura como um bolo ao domingo. Um podcast em comum pode substituir uma história de embalar. A parte essencial mantém-se: “Tenho interesse em quem te estás a tornar.” Essa frase, mesmo sem ser dita, sente-se em cada pequeno gesto.

6. Amam sem exigir recompensas emocionais

No centro de tudo está uma pergunta silenciosa: este avô ama, ou está subtilmente a pedir para ser preenchido? As crianças, mesmo muito pequenas, sentem esta diferença com uma precisão quase de radar. Os avós amados dão sem estarem sempre a verificar o “retorno do investimento”. Ficam contentes por ver o neto entusiasmado com algo que não os envolve. Não esperam chamadas diárias, elogios constantes, gratidão perfeita. Claro que, por vezes, ficam magoados. São humanos. Mas não transformam essa mágoa numa arma.

A psicologia dá a um padrão perigoso o nome de “chantagem emocional”. Pode soar duro, mas aparece muitas vezes em formas suaves: “Se gostasses de mim, ficavas mais tempo”, “Eu fiz tudo por esta família e olha como me pagam”, “Um dia já não estou cá e depois vais arrepender-te.” Estas frases caem como pesos invisíveis no peito das crianças. Criam ansiedade em vez de vinculação. Os avós que são genuinamente amados ao longo do tempo escolhem outra linguagem. “Fico tão feliz quando estás aqui”, “Tenho saudades, mas sei que tens a tua vida”, “Obrigado por esta mensagem, alegrou-me o dia.” O sentimento é o mesmo: saudade. O impacto é radicalmente diferente.

Há espaço para pensar nisto sem se julgar. Se é avô ou avó (ou se teve avós marcantes), que momentos lhe deram a sensação de “porto seguro”: foi uma conversa sem pressa, um limite dito com ternura, ou a certeza de que não precisava de escolher lados? E do outro lado, que frases ou atitudes fizeram o amor parecer um exame, uma dívida, uma responsabilidade pesada? Pode ser útil escolher uma pequena mudança concreta para esta semana: fazer uma pergunta aberta e ouvir até ao fim; respeitar uma regra dos pais sem comentários; trocar um “tenho saudades, devias vir” por um convite com opções. Muitas vezes, o laço não se reconstrói com grandes gestos, mas com microdecisões repetidas, até a confiança voltar a respirar.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Presença acima da performance Ouvir sem apressar, acolher emoções, resistir a distrações Ajuda a criar um vínculo seguro e de confiança que os netos procuram
Limites sem culpa Limites suaves, não comprar afeto, sem chantagem emocional Evita manipulação e constrói respeito a longo prazo
Aliança, não rivalidade Respeito pelas regras dos pais, sem segredos que dividam adultos Protege as crianças de conflitos de lealdade e tensões familiares

FAQ:

  • Como sei se estou a ser manipulador com os meus netos? Pergunte a si mesmo se usa com frequência culpa (“Nunca vens”), ameaças (“Um dia já não estou cá”) ou recompensas (“Compro-te isto se vieres”) para obter atenção; se a resposta for sim, vale a pena ajustar a abordagem com suavidade.
  • Os avós ainda podem mimar os netos sem prejudicar? Sim, desde que os mimos se mantenham dentro de limites claros, não sabotem as regras dos pais e não sejam usados para comprar afeto ou lealdade.
  • E se eu discordar muito do estilo parental dos pais? Fale com eles em privado, com respeito, e lembre-se de que a decisão final é deles; o seu papel pode ser oferecer outra perspetiva, não substituir regras às escondidas.
  • Como posso voltar a aproximar-me de um neto que se afastou? Comece pequeno e honesto: uma mensagem curta, uma foto, uma memória partilhada, sem pressão; reconheça a distância sem culpar e proponha momentos simples e concretos para se verem de novo.
  • É tarde demais para mudar a minha relação com os meus netos? Não; crianças e adolescentes reparam em esforços genuínos, mesmo que tardios, e pequenas mudanças consistentes de atitude podem transformar profundamente o vínculo com o tempo.

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