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Escaladores em Itália descobriram acidentalmente vestígios de uma estampida de tartarugas marinhas com 80 milhões de anos.

Dois escaladores examinando fósseis numa encosta, com o mar ao fundo.

O penhasco cheirava a metal e a creme solar. Cordas pendiam de chumbadouros cravados na rocha pálida, e o Adriático brilhava algures lá em baixo, fora de vista mas bem audível. Três escaladores, de capacete e calções empoeirados, discutiam a próxima via quando um deles, de repente, parou a meio de uma frase. Tinha a mão na parede, os dedos abertos sobre uma linha de impressões estranhas e arredondadas. Não era magnésio, nem erosão. Era outra coisa.

Chamou os outros, e as vozes baixaram como se tivessem entrado numa igreja. A parede à frente deles parecia um engarrafamento congelado: dezenas de ovais sobrepostos, pressionados num antigo fundo marinho agora posto na vertical.

Ninguém disse as palavras em voz alta ao início.

Tartarugas marinhas. Muitas. A moverem-se depressa.

Quando uma escalada de fim de semana se transforma numa debandada pré-histórica

Naquela parede de calcário no norte de Itália, os escaladores deviam estar à procura da própria adrenalina.

Em vez disso, tropeçaram na adrenalina de alguém - ou melhor, de algo - de há 80 milhões de anos. O penhasco, parte dos famosos afloramentos perto da vila de Trieste, sempre fora um recreio para escaladores e caminhantes. As pessoas sabiam que ali havia fósseis. Só não esperavam uma cena tão dramática, escrita na pedra como se fosse um storyboard.

À distância, as marcas pareciam covinhas aleatórias. De perto, o padrão ganhava nitidez: trilhos repetidos, todos na mesma direção, apertados como uma faixa de hora de ponta numa autoestrada que já não existe.

Os escaladores fizeram o que muitos de nós fariam hoje: puxaram do telemóvel.

Tiraram fotografias, gravaram um vídeo tremido e, quase por acaso, marcaram um grupo local de geologia nas redes sociais. Em poucos dias, paleontólogos percorriam o mesmo caminho, de capacete, arnês a tilintar, pescoço esticado para a parede. O que tinha sido uma aventura de fim de semana entre amigos transformou-se, de repente, em algo que acabaria por aparecer em revistas académicas e nas manchetes.

À medida que os cientistas cartografavam a zona, perceberam que não se tratava apenas de meia dúzia de pegadas. Aquilo era um corredor. Uma sequência densa de pegadas de tartarugas, datada do Cretácico Superior, quando os dinossauros ainda caminhavam por perto e este “penhasco” era o fundo lamacento de um mar tropical pouco profundo.

A palavra “debandada” pode soar estranha para tartarugas, esses ícones calmos da lentidão. No entanto, os trilhos sugerem um movimento coordenado e urgente.

Muitos vestígios sobrepõem-se. Seguem trajetórias paralelas na mesma direção, como uma multidão a empurrar para uma única abertura numa vedação. Algumas pegadas são mais profundas, como se animais mais pesados - ou mais apressados - tivessem pressionado com mais força o sedimento. Outras são mais leves, quase a roçar a superfície.

Geólogos que leem a rocha como um diário viram sinais de um evento súbito: talvez uma maré de tempestade, um predador à espreita, ou uma mudança rápida na profundidade da água. Algo levou um grupo inteiro de tartarugas marinhas a mover-se ao mesmo tempo, e o fundo do mar registou o pânico numa série de marcas que só se tornaram visíveis depois de esse mar virar pedra, erguer-se e cruzar-se com três escaladores à procura de uma boa via numa manhã soalheira italiana.

Como “ler” um antigo fundo marinho numa parede de penhasco

A maioria de nós passa por rochas e vê… bem, rochas.

Os paleontólogos são treinados para ver relatórios de trânsito, registos meteorológicos, até cenas de crime. O primeiro passo naquela falésia italiana não foi fixarem-se nas pegadas em si, mas recuar e mapear a superfície. Observaram o ângulo das camadas, o tamanho dos grãos, a forma como a lama rachou e depois foi alisada de novo. Todos estes detalhes apontam para “água pouco profunda” em vez de oceano profundo.

Depois seguiram os trilhos como um escalador segue uma via. Onde começam? Onde se esbatem? Cruzam-se ou divergem como caminhos numa floresta? Ao traçar estas linhas, os cientistas reconstroem comportamentos que nenhuma câmara filmou.

Um pormenor destacou-se: os trilhos pareciam ir de água ligeiramente mais profunda para o que teria sido uma linha de costa ou um banco de areia.

Imagine uma lagoa plana e quente, cheia de vida, de repente atingida por uma vaga. As ondas batem, a visibilidade cai, e predadores ou detritos empurram os animais para águas mais seguras e rasas. As tartarugas - provavelmente parentes das espécies marinhas atuais, mas com algumas diferenças anatómicas - responderam como a maioria dos animais sob stress: moveram-se. Depressa, à sua maneira de tartaruga.

Nesse momento frenético, as barbatanas cravaram-se no sedimento mole. Minutos depois, as condições voltaram a mudar e uma nova camada de lama assentou suavemente por cima, selando um negativo tridimensional da fuga, como um molde natural em gesso.

O que torna esta descoberta mais do que um achado “fixe” é o que acrescenta à grande e confusa história da vida na Terra.

Os trilhos, ao contrário dos ossos, registam comportamento. Ossos dizem quem esteve lá. Trilhos dizem o que estavam a fazer. O local italiano sugere que as tartarugas marinhas do Cretácico Superior poderão ter viajado em grupo mais vezes do que pensávamos, reagindo coletivamente a ameaças súbitas. É uma imagem diferente da tartaruga solitária e à deriva que imaginamos hoje.

Sejamos honestos: ninguém imagina realmente um “rebanho” de tartarugas em movimento. E, no entanto, a rocha diz que aconteceu - pelo menos uma vez - num momento tão intenso que se gravou na história e esperou oito dezenas de milhões de anos até alguém, pendurado numa corda, olhar duas vezes.

De curiosidade no penhasco a mentalidade de caçador de fósseis

Se alguma vez ficou a olhar para uma parede rochosa durante uma caminhada e sentiu aquela comichão de curiosidade, aqui vai um hábito simples, emprestado aos cientistas de campo.

Escolha uma área de rocha de um metro quadrado e dê-lhe toda a sua atenção durante sessenta segundos. Sem scroll, sem fotografias ainda. Apenas observe. Procure repetição: formas que se repetem com ligeiras variações, como pegadas. Repare em linhas: são direitas, onduladas ou quebradas? Note contrastes de cor ou textura.

Este pequeno gesto abranda o olhar. De repente, o que parecia uma salpicadura aleatória pode revelar um padrão de ondulações, uma linha de conchas ou uma pegada ténue prensada na pedra quando a sua parte do mundo estava submersa, pantanosa ou repleta de algo com garras.

Muita gente passa por coisas notáveis porque assume que só especialistas conseguem identificar fósseis.

Todos já passámos por isso, aquele momento em que pensamos: “Isto não pode ser nada de especial, estou só a imaginar.” Os escaladores italianos podiam facilmente ter atribuído aquelas marcas à erosão e continuado a escalar. Em vez disso, pararam tempo suficiente para se interrogarem. Essa pausa é o intervalo onde a descoberta vive.

O reverso da medalha é a tentação de arrancar tudo. É aí que muitos bem-intencionados falham, ao meterem conchas, ossos ou pedras misteriosas no bolso, em vez de as deixarem no contexto para especialistas estudarem mais tarde.

Um dos investigadores que visitou a falésia mais tarde disse aos meios de comunicação locais:

“Nós não encontrámos este local. Foram os escaladores. O nosso trabalho foi simplesmente ouvir o que a rocha já estava a gritar.”

O melhor papel para visitantes curiosos é serem mensageiros atentos. Quando algo parece invulgar, a caixa de ferramentas moderna é simples: fotografias, notas e uma mensagem rápida a quem sabe o que fazer a seguir.

  • Tire fotografias nítidas de perto e uma fotografia mais aberta que mostre onde a estrutura se insere na paisagem.
  • Evite riscar, cinzelar ou molhar a rocha para “melhorar” a visibilidade.
  • Registe as coordenadas GPS ou marque um ponto numa aplicação de mapas.
  • Envie a informação para um museu, universidade ou grupo de geologia local, em vez de publicar apenas em conversas privadas.
  • Mantenha a humildade: a rocha pode ser só rocha - ou pode ser a página em falta de uma história muito antiga.

Porque é que uma corrida de há 80 milhões de anos ainda nos toca hoje

Há algo estranhamente comovente naquela debandada de tartarugas num penhasco acima do mar italiano.

Vivemos depressa, colados a ecrãs, a correr de notificação em notificação. Estes animais moviam-se devagar pelos nossos padrões, mas o seu único momento de urgência sobreviveu a impérios, línguas e linhas de costa. O medo - ou pelo menos a necessidade de chegar a outro sítio, rapidamente - está escrito ali mesmo na pedra, ao lado de mosquetões brilhantes e cordas de nylon das vias de escalada de hoje.

A sobreposição é impossível de ignorar. Dois tipos diferentes de aventureiros, separados por 80 milhões de anos, a partilhar exatamente a mesma parede.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Descoberta dos escaladores Escaladores italianos perto de Trieste detetaram impressões invulgares numa falésia de calcário e alertaram cientistas. Mostra como saídas comuns podem levar a descobertas científicas importantes.
Debandada antiga de tartarugas Trilhos densos e paralelos revelam um movimento em massa de tartarugas marinhas a reagir a um evento súbito num mar cretácico pouco profundo. Oferece uma imagem vívida da vida e do comportamento pré-históricos.
Como reparar em fósseis Observação visual lenta, identificação de padrões e comunicação respeitosa transformam caminhantes e escaladores em “olhos extra” úteis para a ciência. Dá ferramentas práticas para participar em descobertas reais sem precisar de formação especializada.

FAQ:

  • Pergunta 1 Onde em Itália foram encontradas as pegadas fósseis de tartarugas?
    Foram identificadas em falésias de calcário no nordeste de Itália, na região alargada de Trieste, onde sedimentos marinhos do Cretácico Superior formam hoje populares paredes de escalada.
  • Pergunta 2 Que idade têm estas pegadas de tartarugas marinhas?
    A datação geológica das camadas rochosas situa-as em cerca de 80 milhões de anos, no período Cretácico Superior, quando a região estava coberta por um mar quente e pouco profundo.
  • Pergunta 3 Como sabem os cientistas que foi uma “debandada” e não apenas algumas tartarugas?
    A superfície rochosa mostra muitos trilhos sobrepostos e paralelos, todos na mesma direção, sugerindo um movimento concentrado e coletivo, em vez de passagens aleatórias e isoladas.
  • Pergunta 4 Um não especialista poderia realmente descobrir algo semelhante?
    Sim. Muitos sítios fósseis importantes, de pegadas de dinossauros a pegadas humanas antigas, foram primeiro notados por caminhantes, agricultores ou escaladores que simplesmente prestaram atenção e relataram o que viram.
  • Pergunta 5 O que devo fazer se achar que encontrei pegadas fósseis?
    Fotografe-as a várias distâncias, registe a localização, evite danificar o local e contacte um museu, universidade ou serviço geológico próximos para que especialistas possam investigar devidamente.

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