Os investigadores têm analisado de que forma o modo como um bebé nasce pode, de forma subtil, moldar o seu sistema imunitário durante anos, com novos dados a apontarem para um aumento pequeno, mas mensurável, de um tipo específico de cancro infantil após cesarianas programadas.
Um enorme estudo sueco que acompanhou 2,4 milhões de nascimentos
As novas conclusões vêm do Karolinska Institutet, uma das principais universidades médicas da Europa, e foram publicadas no International Journal of Cancer em julho de 2025. Os cientistas analisaram registos de saúde de mais de 2,4 milhões de crianças nascidas na Suécia ao longo de várias décadas.
Recorrendo aos registos nacionais de nascimentos e de cancro, a equipa acompanhou cada criança desde o nascimento e verificou quem" mais tarde desenvolveu leucemia linfoblástica aguda (LLA). A LLA é o cancro mais comum nas crianças, sobretudo o chamado tipo de células B (LLA‑B).
Um ponto forte do trabalho está no detalhe. Os investigadores separaram os nascimentos em três categorias principais:
- Partos vaginais
- Cesarianas de urgência (decididas durante o trabalho de parto)
- Cesarianas programadas (agendadas antes do início do trabalho de parto)
Apenas o último grupo - cesarianas programadas - mostrou um risco elevado de LLA. As cesarianas de urgência, em que o trabalho de parto ainda se inicia naturalmente, não apresentaram esse padrão.
As cesarianas programadas, realizadas antes do início do trabalho de parto, estiveram associadas a um maior risco de leucemia linfoblástica aguda na infância, enquanto as cesarianas de urgência não estiveram.
Para evitar resultados enviesados, foram excluídas crianças com síndromes genéticas conhecidas ou malformações congénitas que já aumentam o risco de leucemia. A equipa também ajustou a análise para escolaridade dos pais, tabagismo durante a gravidez, ordem de nascimento, idade gestacional e peso à nascença. Esse trabalho estatístico visou separar o efeito do modo de parto de outros fatores sociais ou médicos.
Um aumento modesto, mas consistente, do risco
O estudo não sugere um aumento dramático de casos. A LLA na infância continua a ser rara. Na Suécia, apenas cerca de 50 a 70 crianças são diagnosticadas com LLA por ano.
Para a LLA‑B, o subtipo mais frequente, os investigadores estimaram que nascer por cesariana programada esteve associado a um risco relativo 29% superior em comparação com o parto vaginal. Dito de outra forma, isto corresponde a aproximadamente um caso adicional de LLA‑B por 100.000 nascimentos por ano.
Para qualquer criança individualmente, o risco absoluto continua a ser muito baixo. Ainda assim, quando se consideram centenas de milhares de nascimentos a nível nacional, esse risco adicional começa a ter relevância para o planeamento em saúde pública.
O sinal é pequeno para cada família, mas suficientemente forte em milhões de nascimentos para aparecer nas estatísticas.
A associação parece também ser específica. A equipa procurou ligações com outros cancros infantis, como tumores cerebrais e linfomas, e não encontrou um aumento semelhante. Essa especificidade dá força à ideia de que as cesarianas programadas podem interferir com processos imunitários particulares relevantes para a LLA.
Porque é que “saltar” o trabalho de parto pode afetar o risco de cancro
Perturbação do microbioma nos primeiros instantes de vida
Os cientistas veem cada vez mais o nascimento como uma sessão crucial de “treino” imunitário. Durante um parto vaginal, e muitas vezes também nas cesarianas de urgência, o bebé entra em contacto com bactérias vaginais e intestinais da mãe. Estes microrganismos estão entre os primeiros a colonizar a pele, a boca e os intestinos do recém‑nascido.
Essa colonização precoce, conhecida como microbioma, parece ajudar a calibrar o sistema imunitário. Ensina as células imunitárias a distinguir o que deve ser tolerado do que deve ser atacado, moldando a inflamação e os mecanismos de defesa.
Numa cesariana programada, realizada antes do trabalho de parto, essa via de exposição muda. É mais provável que os bebés contactem primeiro com microrganismos do bloco operatório, da pele dos profissionais ou do ambiente hospitalar em geral. Vários estudos mostram que bebés nascidos desta forma podem apresentar bactérias intestinais diferentes durante meses e, por vezes, anos.
Uma colonização microbiana atípica em bebés nascidos por cesariana programada pode alterar subtilmente o desenvolvimento imunitário e, em casos raros, criar condições que favorecem o crescimento de células malignas.
Os investigadores envolvidos no estudo sueco sugerem que essas alterações podem desviar ligeiramente o sistema imunitário em desenvolvimento. Uma resposta imunitária “desafinada” pode não conseguir controlar linfócitos anormais - glóbulos brancos que, quando se multiplicam sem controlo, conduzem à LLA.
A ausência do “stress” do trabalho de parto
Outra hipótese centra‑se nas hormonas. O trabalho de parto e o nascimento vaginal expõem o bebé a stress físico de curta duração: contrações, pressão no canal de parto e oscilações nos níveis de oxigénio. Isto desencadeia um pico de hormonas como o cortisol e a adrenalina.
Essas hormonas ajudam a eliminar líquido dos pulmões, a regular o açúcar no sangue e a iniciar a adaptação à vida fora do útero. Podem também influenciar a maturação das células imunitárias nas primeiras horas e dias.
As cesarianas programadas ocorrem muitas vezes antes do início das contrações, pelo que esse pico hormonal fica atenuado ou ausente. Alguns cientistas consideram que a falta desse sinal pode alterar ligeiramente o calendário do desenvolvimento imunitário e metabólico, com consequências a longo prazo para uma minoria muito pequena de crianças.
Não é um argumento contra cesarianas que salvam vidas
As cesarianas podem salvar a vida da mãe e do bebé quando surgem complicações: placenta prévia, pré‑eclâmpsia grave, sofrimento fetal e trabalho de parto que não progride, entre outras. Nenhuma estatística sobre cancro altera essa realidade.
A equipa sueca sublinha que as suas conclusões não colocam em causa as cesarianas medicamente necessárias. Em vez disso, acrescentam mais uma camada a uma discussão já existente sobre o aumento global das cesarianas programadas ou “a pedido”.
| Tipo de cesariana | Motivo típico | Sinal de LLA infantil no estudo |
|---|---|---|
| Urgência | Complicação durante o trabalho de parto | Não foi detetado aumento do risco |
| Programada (médica) | Riscos conhecidos antes do trabalho de parto (p. ex., placenta prévia) | Algum aumento do risco, entrelaçado com condições subjacentes |
| Programada (não médica) | Agendamento, medo da dor, conveniência | Sinal de aumento do risco mais preocupante para decisores políticos |
Investigação anterior já associou cesarianas programadas a taxas mais elevadas de asma, alergias e diabetes tipo 1. Os novos dados sobre leucemia juntam‑se a essas conclusões, sugerindo que evitar o trabalho de parto pode ter vários efeitos modestos e de longo prazo em doenças relacionadas com o sistema imunitário.
O que isto significa para pais e clínicos
Para futuros pais, a mensagem é matizada. O risco absoluto de LLA infantil mantém‑se diminuto, independentemente do modo de parto. Uma cesariana com indicação médica não deve ser adiada nem recusada por receio de leucemia.
As implicações são mais relevantes quando uma cesariana programada é pedida principalmente por conveniência ou agendamento, na ausência de necessidade médica. Nesses casos, os pais podem querer colocar mais perguntas sobre resultados a longo prazo, além do conforto a curto prazo.
Quando não existe uma razão médica clara, escolher uma cesariana programada significa aceitar uma pequena, mas real, alteração nas probabilidades de saúde a longo prazo para a criança.
Algumas maternidades já oferecem aconselhamento detalhado sobre os prós e contras dos diferentes modos de parto. Estes novos dados dão aos obstetras mais um ponto para discutir: não para alarmar os pais, mas para tornar as conversas sobre riscos e benefícios mais completas.
Compreender alguns termos-chave
O que é a leucemia linfoblástica aguda?
A leucemia linfoblástica aguda é um cancro do sangue e da medula óssea. Em crianças, afeta geralmente glóbulos brancos imaturos chamados linfoblastos. Estas células anormais multiplicam‑se rapidamente e ocupam o espaço das células saudáveis formadoras de sangue.
Os sintomas podem incluir cansaço persistente, infeções frequentes, nódoas negras inexplicáveis, dores ósseas e febre. O tratamento envolve frequentemente quimioterapia durante vários anos, e as taxas de sobrevivência em países de elevado rendimento são hoje relativamente altas. Ainda assim, a LLA continua a ser uma doença grave, com tratamento exigente e efeitos secundários a longo prazo para muitos sobreviventes.
O que significa, na prática, “29% mais risco”?
Valores de risco relativo costumam soar mais dramáticos do que são. Imagine que, numa grande população, 3 em cada 100.000 crianças nascidas por via vaginal desenvolvem LLA‑B. Um aumento de 29% elevaria esse número para cerca de 3,9 em cada 100.000 entre crianças nascidas por cesariana programada.
Para uma família, essa diferença é quase impercetível. Para sistemas de saúde que gerem milhões de nascimentos e cuidados oncológicos a longo prazo, a carga adicional torna‑se mais visível.
Para onde a investigação pode seguir
As conclusões suecas levantam questões práticas para cuidados futuros. Se a perturbação do microbioma for parte do problema, poderão estratégias dirigidas - como o “seeding” vaginal cuidadosamente monitorizado ou o uso precoce de probióticos - compensar parte do risco após cesarianas programadas? Nesta fase, tais abordagens permanecem experimentais e, por vezes, controversas.
Outra via passa por combinar informação genética com dados de nascimento. Nem todas as crianças são igualmente suscetíveis à LLA. Estudos futuros poderão identificar subgrupos de bebés para os quais evitar cesarianas não médicas seria especialmente benéfico, porque o seu perfil genético subjacente já aumenta o risco de leucemia.
Por agora, o estudo acrescenta mais uma peça a um puzzle complexo: como as primeiras horas de vida podem repercutir‑se na saúde ao longo da infância. Para clínicos que ponderam cesarianas programadas com os pais, essa repercussão está a tornar‑se mais difícil de ignorar.
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