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O pensamento negativo pode acelerar o aparecimento da demência.

Mulher madura sentada na cozinha, segurando chá quente e olhando para um livro com frutas e remédio na mesa.

À medida que os cientistas se apressam a compreender porque é que a memória de algumas pessoas se desvanece mais depressa do que a de outras, a atenção está a virar-se para algo que muitas vezes tratamos como inofensivo: o nosso monólogo interior. Um grande estudo que abrange o Canadá e o Reino Unido aponta agora para uma ligação preocupante entre o pensamento negativo repetitivo e as alterações biológicas observadas na demência.

A acumulação silenciosa antes de a memória começar a falhar

Há anos que os neurologistas sabem que a demência não começa no dia em que alguém começa a esquecer compromissos. No cérebro, uma tempestade lenta vai-se formando muito antes disso. Proteínas pegajosas chamadas amiloide e tau começam a acumular-se, interferindo na forma como os neurónios comunicam entre si e, com o tempo, destruindo-os.

Estes depósitos podem surgir muitos anos antes dos primeiros problemas de memória mais óbvios. Essa fase inicial e oculta tornou-se um foco central para centros de investigação que tentam identificar quem está em risco e o que pode acelerar ou abrandar o declínio.

Em Montreal, o programa PREVENT-AD (de “Pre-symptomatic Evaluation of Experimental or Novel Treatments for Alzheimer Disease”, ou “Avaliação Pré-Sintomática de Tratamentos Experimentais ou Inovadores para a Doença de Alzheimer”) tem acompanhado pessoas com uma forte história familiar da doença. Os participantes fazem exames ao cérebro, testes genéticos e análises do líquido cefalorraquidiano. O objetivo é claro: identificar os sinais de alerta mais precoces e os fatores de estilo de vida ou psicológicos que possam inclinar a balança num sentido ou noutro.

A doença de Alzheimer remodela silenciosamente o cérebro anos antes do primeiro nome esquecido ou das chaves perdidas.

Até há pouco tempo, a maior parte deste trabalho centrava-se na biologia: genes, inflamação, fluxo sanguíneo, sono, alimentação. Emoções e pensamentos eram geralmente vistos como aspetos secundários ou simplesmente como consequências de viver com um cérebro a envelhecer. Essa visão está a começar a mudar.

Quando o pensamento negativo deixa uma marca física

Uma equipa de investigação sediada no University College London trouxe a mente para o centro do debate. Num trabalho divulgado em 2026 e baseado em dados tanto da coorte PREVENT-AD como de um estudo francês conhecido como IMAP+, acompanharam adultos mais velhos ao longo de vários anos, medindo repetidamente o estilo de pensamento, a memória e a saúde cerebral.

Deram especial atenção a um padrão chamado “pensamento negativo repetitivo” - um tipo de ciclo mental em que as pessoas se preocupam constantemente com o futuro ou revivem acontecimentos dolorosos do passado. Isto é mais do que uma preocupação ocasional; é um ruído de fundo mental constante de medo e autocrítica.

Quanto mais as pessoas ficavam presas em ciclos de preocupação e ruminação, mais os seus cérebros mostravam características biológicas associadas à doença de Alzheimer.

Quem tinha pontuações elevadas de pensamento negativo repetitivo tendia a apresentar um declínio cognitivo mais rápido. Exames ao cérebro e testes a fluidos também apontavam para níveis mais altos de amiloide e tau, proteínas fortemente ligadas à doença de Alzheimer.

Crucialmente, esta associação manteve-se mesmo quando os investigadores tiveram em conta a depressão e a ansiedade. Por outras palavras, não se tratava apenas de “pessoas deprimidas terem demência”. O hábito específico de voltar repetidamente aos mesmos pensamentos negativos parecia ter importância por si só.

Porque é que o “filtro de otimismo” do cérebro importa

Jornalistas de ciência que escreveram sobre o estudo destacaram outra ideia intrigante: o cérebro parece ter uma tendência natural para o otimismo. Em condições típicas, tendemos a subestimar o quão mau poderá ser o futuro e a sobrestimar a nossa capacidade de lidar com as dificuldades. Este enviesamento ajuda-nos a manter a motivação e o envolvimento com a vida.

Com stress prolongado e ruminação crónica, esse filtro otimista parece ceder. A mente passa para um modo constante de deteção de ameaças. As hormonas do stress mantêm-se elevadas, o sono é perturbado e os mecanismos de reparação do cérebro têm dificuldade em acompanhar.

Num cérebro que já carrega placas de amiloide ou emaranhados de tau, esta pressão extra pode acelerar os danos. Circuitos envolvidos na memória e na regulação emocional - em particular no hipocampo e nos lobos frontais - são especialmente vulneráveis ao stress crónico.

  • O pensamento negativo repetitivo aumenta o stress psicológico.
  • O stress crónico altera a química e a estrutura do cérebro.
  • A acumulação proteica existente pode então espalhar-se e danificar células mais rapidamente.

Um novo ângulo para prevenir a demência

As implicações são desconfortáveis, mas também potencialmente promissoras. Se padrões de pensamento podem agravar os marcadores biológicos da demência, então alterar esses padrões pode passar a integrar estratégias de prevenção.

Os hábitos mentais poderão um dia estar ao lado do exercício e da alimentação nas recomendações para um envelhecimento amigo do cérebro.

Os investigadores envolvidos argumentam que certas terapias psicológicas podem ter um papel. A terapia cognitivo-comportamental (TCC), que ensina as pessoas a identificar e desafiar pensamentos distorcidos, já tem forte evidência no tratamento da ansiedade e da depressão. Abordagens baseadas em mindfulness (atenção plena) incentivam as pessoas a observar as preocupações sem se deixarem arrastar por elas, reduzindo o poder dos ciclos repetitivos.

Estas intervenções têm um risco relativamente baixo e podem ser feitas presencialmente, online ou em grupo. Para pessoas com elevado risco genético ou familiar de demência, podem oferecer uma forma prática de reduzir a pressão sobre um cérebro já vulnerável.

Como o pensamento negativo difere da preocupação “normal”

Nem toda a preocupação é prejudicial. Uma preocupação breve pode levar ao planeamento e à resolução de problemas. O padrão que alarma os cientistas é o pensamento negativo repetitivo, que tende a ter três características:

  • Repetitivo: os mesmos pensamentos reaparecem uma e outra vez.
  • Abstrato: focado em “e se tudo correr mal?”, e não em passos concretos.
  • Incontrolável: as pessoas sentem que não conseguem desligar os pensamentos.

Ao longo de meses e anos, este estilo mental molda os níveis de stress, a qualidade do sono, o envolvimento social e a saúde física - tudo fatores conhecidos por influenciarem o risco de demência. O novo trabalho sugere que também pode estar ligado diretamente às alterações biológicas no cérebro.

Para onde esta investigação poderá seguir

Os estudos atuais não provam que o pensamento negativo, por si só, cause demência. Muitos participantes já apresentavam outros fatores de risco, incluindo idade, genes e problemas cardiovasculares. O que os dados indicam é que estes hábitos mentais podem funcionar como um amplificador.

É provável que futuros ensaios testem se treinar as pessoas para mudarem o seu estilo de pensamento pode abrandar o ritmo do declínio cognitivo ou reduzir a acumulação de amiloide e tau. Isso exigiria um acompanhamento prolongado e um desenho cuidadoso, mas a possibilidade está a atrair atenção porque os tratamentos farmacológicos para o Alzheimer têm, até agora, trazido benefícios modestos e muitas vezes de curta duração.

Fator Visão atual sobre o risco de demência
Idade Principal fator de risco, não modificável
Genética (por exemplo, APOE ε4) Aumenta o risco, não pode ser alterada
Saúde cardiovascular Melhor saúde do coração associada a menor risco de demência
Qualidade do sono Sono pobre associado à acumulação de amiloide
Pensamento negativo repetitivo Evidência emergente de ligação a amiloide, tau e declínio mais rápido

O que isto significa para o dia a dia

Para quem se preocupa com a memória, esta investigação não significa que cada pensamento ansioso seja perigoso. Mas reforça a ideia de que cuidar dos hábitos mentais faz parte de cuidar do cérebro.

Ações simples e regulares podem orientar padrões de pensamento numa direção mais saudável: resolução de problemas estruturada em vez de “remoer”, manter uma breve “janela de preocupação” em vez de ruminar o dia inteiro, ou praticar exercícios de mindfulness que treinam a atenção para longe de ciclos automáticos.

A ligação social também funciona como amortecedor. Conversas com amigos ou família podem quebrar ciclos solitários de preocupação e trazer perspetivas mais equilibradas. A atividade física, desde caminhadas rápidas até dançar, reduz as hormonas do stress e apoia o fluxo sanguíneo para o cérebro, contrariando indiretamente os danos associados à ruminação prolongada.

Termos-chave que vale a pena explicar

A investigação sobre o risco de demência está cheia de linguagem técnica que pode parecer distante do quotidiano. Alguns dos termos-chave nesta história são:

  • Amiloide: uma proteína que pode aglomerar-se entre as células cerebrais, formando placas que perturbam a comunicação.
  • Tau: uma proteína no interior dos neurónios que, quando anormal, forma emaranhados e contribui para a morte celular.
  • Biomarcador: um sinal biológico mensurável, como um nível de proteína no líquido cerebral, que sugere um processo de doença antes de surgirem sintomas.
  • Pensamento negativo repetitivo: um hábito persistente de preocupação ou ruminação que se sente “preso” e improdutivo.

Imaginar dois adultos mais velhos pode tornar as conclusões mais concretas. Um revisita frequentemente erros antigos, fica acordado a repetir conversas e sente-se impotente para mudar o que quer que seja. O outro também enfrenta stress, mas tende a planear ações específicas, pedir ajuda e depois “estacionar” mentalmente o assunto. Os seus cérebros podem envelhecer sob condições muito diferentes, mesmo que os seus históricos médicos pareçam semelhantes no papel.

Nenhum hábito isolado determina quem irá desenvolver demência. A imagem que está a emergir tem mais a ver com acumulação. Genes, tensão arterial, sono, níveis de atividade e agora estilo de pensamento parecem todos acrescentar o seu peso à balança. Ajustar mesmo um destes fatores numa direção favorável pode ajudar o cérebro a lidar durante mais tempo com as alterações do envelhecimento.

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