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Ondas colossais de 35 metros no Pacífico dividem especialistas entre alertar para um desastre sem precedentes e considerar como ciclo normal dos oceanos.

Homem observa o mar com binóculos, em frente a um laptop e uma luz de alerta laranja, numa costa com ondas grandes.

Justo antes do nascer do sol, o Pacífico parece quase dócil. Uma chapa cinzenta e lisa, algumas ondulações sonolentas, o baque suave da água contra o aço. Depois, uma sirene rasga a brisa a bordo do navio de investigação, e toda a gente corre para os monitores. Um pico vermelho sobe no ecrã. À proa, o horizonte parece subitamente partido, como se o próprio oceano tivesse criado uma espinha dorsal serrilhada.

Ondas de trinta e cinco metros - mais altas do que um edifício de dez andares - estão ali a rolar na meia-luz, longe de qualquer bar de praia ou câmara de turista. No convés, cientistas murmuram, discutem, bebem café que já arrefeceu nas mãos.

Alguns sussurram “desastre sem precedentes”.
Outros encolhem os ombros e dizem: mesmo oceano, ciclo diferente.
Quem tem razão?

Quando o Pacífico se ergue como uma parede de água

Para os marinheiros que atravessam o meio do Pacífico neste inverno, o mar não se sente como o vazio azul calmo impresso nos mapas. Sente-se vivo, inquieto, temperamental. Capitães de cargueiros relatam paredes de água mais altas do que a ponte de comando. Surfistas a seguir cartas de tempestade veem os ecrãs ficarem vermelho-sangue à medida que a ondulação do vento se empilha sobre ondulações antigas.

Visto por satélite, a superfície do Pacífico parece um batimento cardíaco descontrolado. Ondulações que viajam milhares de quilómetros acumulam-se nas mesmas rotas de tempestade, empurradas por sistemas de baixa pressão a rugir e alimentadas por águas invulgarmente quentes. Em dias bons, é apenas impressionante. Em dias maus, é aterrador.

Há uma semana, um porta-contentores japonês desviou-se 400 quilómetros para sul depois de os sensores a bordo assinalarem ondas anómalas acima dos 30 metros. Sem vídeo de smartphone, sem clip viral - apenas um relatório seco de incidente, um convés riscado e uma tripulação que, de repente, fumava muito mais na ronda nocturna.

Bem longe, no Havai, boias ondógrafo ao largo da North Shore registaram discretamente o mesmo “comboio” de energia a passar por baixo. Os surfistas celebraram previsões recorde; os engenheiros costeiros franziram o sobrolho perante gráficos projectados de erosão litoral. Num pequeno atol do Kiribati, a mesma ondulação transformou-se em rebentação destrutiva junto à costa, roendo mais uma fatia de praia onde as crianças costumavam brincar. Um sistema de tempestade, três histórias muito diferentes.

Então por que motivo os especialistas estão tão divididos? Uma parte importante tem a ver com escalas temporais. Para climatólogos que analisam décadas de dados, o Pacífico já conheceu grandes oscilações de humor - El Niño, La Niña, oscilações decadais que reforçam ou acalmam bacias oceânicas inteiras. Sob esse ângulo, gigantes como ondas de 35 metros podem parecer parte de um ritmo duro, mas familiar.

Para especialistas em risco e planeadores costeiros focados neste ano e no próximo, essas mesmas ondas colidem com a subida do nível do mar, infra-estruturas frágeis e populações costeiras em explosão. O ciclo pode ser natural, argumentam, mas o pano de fundo mudou. Mesmo oceano, novas vulnerabilidades.

Como as autoridades e as pessoas comuns podem interpretar estas ondulações monstruosas

Numa secretária atulhada em Wellington, um meteorologista neozelandês passa um dedo ao longo de uma trajectória de tempestade em espiral no ecrã. O seu trabalho não é parar ondas de 35 metros. É traduzir essa energia colossal em algo que um piloto de barra, um pescador ou um responsável pelo turismo possa usar. Ajusta o nível de aviso, redige um boletim e alerta portos por todo o Pacífico Sul antes de a primeira parede gigante de água sequer dar a cara.

Este é o método silencioso por trás do drama: dados de boias em tempo real, altimetria por satélite, modelos em conjunto e, sim, um pouco de instinto de quem observa este oceano há décadas. Não se negocia com as ondas. Cronometram-se.

Para comunidades costeiras, os conselhos soam muitas vezes simples no papel e irritantemente complexos na vida real. Adiar saídas de pesca um dia. Fechar uma estrada costeira panorâmica quando a ondulação ultrapassa determinada altura. Deslocar depósitos críticos de combustível dois metros para o interior. São escolhas pequenas, pouco glamorosas, que raramente fazem manchetes.

Todos já passámos por isso: aquele momento em que os avisos parecem exagerados - até que um vídeo de uma onda a varrer um parque de estacionamento se torna viral e, de repente, os alertas já não parecem assim tão ridículos. Sejamos honestos: ninguém estuda a sério gráficos de período de onda antes de um fim-de-semana à beira-mar. E, no entanto, esses números aborrecidos são a diferença entre “surf espectacular” e “inundações inesperadas na terceira fila de casas”.

Alguns cientistas estão a tentar colmatar a distância na linguagem, não apenas nos modelos. Quando dizem “clima de ondas extremas”, não falam só dos sonhos dos surfistas. Falam da sua auto-estrada costeira, dos seus cabos de fibra óptica no fundo do mar, do seu café preferido no topo da falésia.

“Chamar a estas ondas de 35 metros ‘normais’ ou ‘catastróficas’ falha o essencial”, diz a especialista em riscos marinhos Lina Ortega. “São normais para um oceano que sempre foi selvagem. Tornam-se catastróficas quando fingimos que essa selvajaria ficou do lado de lá do resort.”

Para concretizar, algumas agências resumem agora cada grande ondulação com boletins curtos, centrados nas pessoas, como:

  • Altura de onda: o que uma pessoa num pontão realmente vai ver e sentir
  • Período de onda: com que frequência os grandes conjuntos vão bater na costa
  • Impacto costeiro: inundações, erosão, ou apenas borrifo dramático nas rochas

São pequenas ferramentas de tradução, mas decidem quem cancela uma viagem e quem arrisca.

Um planeta de água em movimento, e uma linha que continuamos a redesenhar

Ficar numa falésia do Pacífico na época de tempestades torna difícil contrariar as ondas. Elas continuam a chegar. Ondulação após ondulação, cada uma uma mensageira de uma tempestade distante que nunca verá. As discussões entre especialistas - desastre ou ciclo natural? - podem parecer estranhamente pequenas perante esse poder constante e indiferente.

Ainda assim, essas discussões importam, porque redesenham silenciosamente a linha entre “risco aceitável” e “perigo intolerável”. Mova-se essa linha um pouco, e mudam leis de ordenamento do território, pagamentos de seguros, até mesmo se um adolescente numa aldeia costeira decide ficar ou partir. A ciência não vive apenas em revistas; ecoa em conversas à mesa da cozinha do Peru à Polinésia.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Ondas gigantes podem ser “naturais” e ainda assim perigosas Ciclos de ondulação do Pacífico e padrões climáticos podem produzir ondas de 30–35 m sem violar a física Ajuda a perceber por que alguns especialistas desvalorizam o pânico enquanto outros defendem preparação séria
O contexto transforma ondulações em desastres Mares mais altos, costas sobrelotadas e infra-estruturas envelhecidas amplificam o impacto de épocas de grande ondulação Mostra por que tempestades familiares podem agora causar danos pouco familiares onde as pessoas vivem e trabalham
A acção acontece muito antes de a onda bater Previsões, avisos locais e escolhas do dia-a-dia moldam os resultados mais do que heroísmos de última hora Dá uma perspectiva prática para ler alertas e planear viagens costeiras em períodos tempestuosos

FAQ:

  • As ondas de 35 metros estão mesmo a acontecer no Pacífico? Sim. Medições em oceano aberto, feitas por boias e satélites, por vezes registam ondas na faixa dos 30–35 m durante tempestades intensas, muito ao largo e longe de praias.
  • Estas ondas significam que as alterações climáticas estão fora de controlo? Não provam uma causa única por si só, mas oceanos mais quentes e trajectórias de tempestade em mudança podem carregar mais energia no sistema, somando-se aos ciclos naturais.
  • Estas ondas enormes podem chegar à praia com a altura total? Não. Quando gigantes de oceano aberto chegam a águas costeiras pouco profundas, a altura e a forma mudam, embora possam ainda assim gerar surf extremo, inundações e erosão.
  • Devo cancelar planos de viagem para costas do Pacífico? Não automaticamente. Consulte as previsões marítimas locais, siga os avisos oficiais e evite zonas expostas durante grandes episódios de ondulação, em vez de se guiar por medo genérico.
  • O que é que as pessoas comuns podem realmente fazer em relação a isto? Manter-se informado sobre padrões sazonais onde vive ou viaja, apoiar planeamento costeiro resiliente e tratar o oceano menos como cenário de parque temático e mais como aquilo que é: um sistema em movimento e poderoso ao lado do qual vivemos.

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