Há dias em que a cozinha começa com uma mensagem: “claro! por favor, envie o texto que deseja que eu traduza.”, ou até “sure! please provide the text you would like me to translate.” - frases típicas de quem encontra uma receita lá de fora e quer trazê-la para a realidade de casa. E isto faz sentido porque, num prato como perna de borrego assada com arroz de miúdos no forno, o essencial não é a língua: é acertar nos detalhes para sair suculenta, com o arroz solto e um molho verdadeiramente rico.
A boa notícia é que não precisa de manobras complicadas nem de uma bateria de panelas. Com um tabuleiro fundo, um tacho pequeno e algum respeito pelos tempos (e pelo descanso da carne), consegue-se um almoço de domingo com aspeto de restaurante.
A lógica do prato: carne bem assada, arroz que “bebe” sabor, molho com profundidade
A perna de borrego fica melhor quando assa com humidade bem gerida: começa em temperatura alta para ganhar cor e, depois, segue tapada (ou bem regada) para não secar. No fim, o tabuleiro é metade do molho.
O arroz de miúdos no forno funciona como uma “segunda assadeira”: bebe caldo e gordura boa, mas precisa de um truque simples para não ficar empapado - pré-cozer pouco e terminar no forno, destapado, até ficar no ponto.
Não é um prato rápido, mas é um prato simples: tudo depende de organizar as etapas e aproveitar os sucos.
Ingredientes (6–8 pessoas)
Para a perna de borrego
- 1 perna de borrego (2 a 2,5 kg), com osso
- 6–8 dentes de alho (metade esmagados, metade inteiros)
- 2 folhas de louro
- 2 ramos de alecrim (ou tomilho)
- 1 c. sopa de massa de pimentão (opcional, mas ajuda muito)
- 150 ml vinho branco (ou tinto leve, se preferir)
- 500–700 ml caldo quente (carne/galinha, ou água + 1 c. chá de concentrado)
- Azeite q.b.
- Sal grosso e pimenta preta q.b.
- 1 cebola grande em meias-luas
- 2 cenouras em rodelas (opcional, mas dá doçura ao molho)
Para o arroz de miúdos no forno
- 300 g arroz carolino
- Miúdos: 250–400 g (corações, moelas e fígado; se houver do frango/peru melhor)
- 1 cebola média picada
- 2 dentes de alho picados
- 1 folha de louro
- 1 c. sopa de banha ou azeite
- 800–900 ml caldo quente (idealmente do assado, já coado e desengordurado)
- Salsa picada q.b.
- Sal e pimenta q.b.
Antes de começar: os 3 pontos que evitam falhas
- Temperatura da carne: retire o borrego do frigorífico 30–45 minutos antes. Assar gelado dá carne mais rija e cozedura irregular.
- Sal com intenção: tempere por fora (e, se conseguir, em 1–2 golpes mais fundos junto ao osso). O molho só fica “redondo” se a carne estiver bem temperada.
- Caldo quente sempre: caldo frio no tabuleiro trava a cozedura e “coze” em vez de assar.
Assar a perna: passo a passo sem stress
- Aqueça o forno a 220 ºC.
- Tempere a perna: esfregue com sal, pimenta, massa de pimentão (se usar) e um fio generoso de azeite. Faça 6–8 cortes pequenos e enfie alho e pedacinhos de alecrim.
- Prepare o tabuleiro: ponha cebola e cenoura no fundo, junte o louro, um fio de azeite, o vinho branco e 250 ml de caldo quente. Coloque a perna por cima, com a pele voltada para cima.
- Doure primeiro: 20 minutos a 220 ºC.
- Asse com controlo: baixe para 170–180 ºC, tape com folha de alumínio (sem encostar na pele) e asse mais 1h40–2h, regando 2–3 vezes e acrescentando caldo quente sempre que o tabuleiro secar.
- Finalize para pele bonita: retire o alumínio nos últimos 15–20 minutos e suba para 200 ºC se precisar de mais cor.
Tempos orientativos (para não andar às cegas)
| Peso da perna | Forno (fase lenta) | Descanso |
|---|---|---|
| 2,0 kg | 1h30–1h45 | 15–20 min |
| 2,5 kg | 1h50–2h10 | 20 min |
Retire a perna, tape frouxamente e deixe repousar. Este descanso é o que transforma “assado” em “suculento”, porque os sucos voltam a distribuir-se.
Molho bem rico: como tirar tudo do tabuleiro
Enquanto a carne descansa, trate do molho. É aqui que o prato ganha verdadeira profundidade.
- Coar e desengordurar: verta o líquido do tabuleiro para um passador, pressionando bem a cebola e a cenoura. Deixe repousar 2–3 minutos e retire parte da gordura à superfície (não toda).
- Reduzir: leve o líquido ao lume médio e deixe reduzir até ganhar corpo e brilho.
- Ajustar: prove e corrija sal, pimenta e acidez. Se estiver “morno”, uma gota de vinagre ou limão no fim desperta tudo.
- Opcional (molho mais aveludado): dissolva 1 c. chá de amido de milho em 2 c. sopa de água fria e vá juntando aos poucos, mexendo, só até ligar.
Se o molho estiver demasiado intenso, não é defeito: é concentração. Resolve-se com mais caldo quente e mais 2–3 minutos de fervura.
Arroz de miúdos no forno: sabor, mas sem ficar pesado
Os miúdos dão um sabor “antigo” e muito português, mas há dois segredos: não os cozinhar demais e não afogar o arroz em líquido.
Preparar os miúdos
- Limpe bem. Se usar moelas, coza-as antes 20–30 minutos (ou use já cozidas).
- Corte tudo em pedaços pequenos. O fígado deve entrar mais tarde para não secar.
Cozinhar e levar ao forno
- Num tacho, refogue a cebola, o alho e o louro em banha/azeite.
- Junte moelas/corações, sal e pimenta, e salteie 3–4 minutos.
- Acrescente o arroz e envolva 1 minuto para “selar” os grãos.
- Adicione caldo quente (conte, em média, 3 partes de caldo para 1 de arroz carolino, mas ajuste ao seu tabuleiro). Quando levantar fervura, conte 5 minutos.
- Desligue, junte o fígado em cubinhos e a salsa picada.
- Passe para um tabuleiro e leve ao forno a 190 ºC, destapado, 15–20 minutos, até o arroz estar cozido e a superfície ligeiramente dourada.
Se tiver caldo do assado, use-o aqui: o arroz fica com um sabor difícil de reproduzir de outra forma.
Como servir (e como acertar no ponto à primeira)
Fatie a perna contra a fibra, regue com um pouco de molho e sirva o restante à parte. O arroz deve ir à mesa acabado de sair do forno, para manter o topo solto e perfumado.
Para um prato mais equilibrado, acompanhe com: - grelos salteados com alho, ou - uma salada ácida (alface, cebola roxa e laranja), que corta a gordura.
Erros comuns (e correções rápidas)
- Carne seca: faltou descanso, ou o forno esteve demasiado alto durante demasiado tempo. Da próxima, tape na fase lenta e regue com mais regularidade.
- Molho aguado: reduza mais 5–10 minutos; se estiver sem “alma”, faltou sal ou concentração do tabuleiro.
- Arroz empapado: caldo a mais ou tempo a mais tapado. Solução: espalhe o arroz num tabuleiro largo e leve 5–8 minutos ao forno destapado para secar.
FAQ:
- Posso fazer sem miúdos? Pode. Substitua por frango desfiado, enchidos em cubos (pouco) ou cogumelos salteados, mantendo a lógica do caldo quente e do acabamento no forno.
- Que vinho é melhor no tabuleiro? Branco seco resulta quase sempre. Se usar tinto, escolha um leve e pouco tânico para não amargar ao reduzir.
- Dá para adiantar trabalho? Sim: asse a perna até ao fim da fase lenta, guarde tapada e finalize a cor no dia (15–20 min). O arroz pode ficar pré-cozido 5 minutos e ir ao forno só antes de servir.
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