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Portugal está a perder popularidade entre reformados, que agora preferem outro destino europeu com melhores benefícios e qualidade de vida.

Casal sênior planeia viagem com mapas, num terraço costeiro, ao pôr-do-sol. Dois cafés e azeitonas sobre a mesa.

Numa manhã suave de inverno em Lisboa, a esplanada do café que outrora fervilhava de vozes em inglês, francês e alemão está estranhamente silenciosa. A luz atlântica continua dourada, os prédios em tons pastel continuam a descascar da mesma forma romântica, e ainda assim a multidão mudou. Menos recém-chegados de cabelos prateados a perguntar por números de contribuinte, mais nómadas digitais curvados sobre portáteis, a falar de start-ups em vez de pensões.

O empregado encolhe os ombros quando lhe pergunto sobre “todos os reformados que costumavam vir”. Faz um gesto vago na direção do rio. “Agora vão para outro sítio. Mais barato. Mais fácil.”

No telemóvel, mostra-me uma foto do verão passado: a casa de um amigo junto ao mar, na Grécia. Pedra desbotada pelo sol, água turquesa, uma fila de espreguiçadeiras.

Portugal, durante muito tempo o queridinho dos reformados europeus, de repente já não parece o sonho definitivo.

De promessa dourada a favorito em declínio

Há dez anos, Portugal parecia o jackpot europeu da reforma. Sol, segurança, baixo custo de vida e um regime fiscal que roçava o inacreditável. Era possível ouvir conversas inteiras nas caixas do supermercado em inglês e francês, todas sobre residências, campos de golfe e planos de saúde privados.

Hoje, as mesmas pessoas estão a refazer contas em silêncio. As rendas duplicaram nalguns bairros, as contas dos restaurantes aproximaram-se das de Paris e Berlim, e o famoso regime fiscal de Residente Não Habitual (RNH) está a ser revertido. Quem chegou cedo ainda defende a escolha. Os recém-chegados têm muito mais dúvidas.

Vejamos David e Anne, um casal britânico de Surrey que se mudou para o Algarve em 2017. Na altura, a pensão de €1.000 de cada um parecia uma pequena fortuna. Alugaram um T2 soalheiro em Lagos por €650, juntaram-se a um grupo de caminhadas e até começaram aulas de português. A vida sabia a férias permanentes.

Este ano, o senhorio anunciou um novo valor: €1.200 pelo mesmo apartamento. Os cafés locais aumentaram discretamente o café de €1 para €1,70. A eletricidade também subiu. “Não estamos a passar fome”, diz David, “mas a margem desapareceu.” No outono passado passaram semanas a visitar vilas costeiras na Grécia e em Espanha. David admite que agora estão a pensar mudar-se outra vez - algo que nunca imaginaram.

Parte da história é brutalmente simples: Portugal tornou-se popular, depressa. Os investidores acorreram, o Visto Gold trouxe dinheiro estrangeiro e o alojamento de curta duração consumiu a oferta de habitação de longa duração. Os salários não acompanharam e as tensões aumentaram. O governo respondeu eliminando gradualmente os benefícios fiscais mais generosos para reformados estrangeiros e apertando o cerco aos vistos especulativos.

Para os locais, esta mudança já vinha atrasada. Para pensionistas com rendimentos fixos, alterou toda a equação. Quando se contam euros em vez de se perseguir financiamento para uma start-up, cada aumento da renda dói. E, de repente, lugares que antes pareciam “demasiado remotos” ou “pouco conhecidos” - como ilhas gregas mais pequenas ou províncias espanholas menos faladas - começam a brilhar.

A nova paixão europeia: a Grécia entra em cena

Se Portugal é o ex de quem ainda se fala com carinho, a Grécia é a nova paixão que vai conquistando corações em silêncio. As paisagens ajudam: aldeias caiadas de branco, enseadas cristalinas, montanhas cobertas de oliveiras. Mas o que realmente prende os reformados é mais prosaico: preços mais baixos do imobiliário, gentrificação mais lenta e uma taxa fixa de 7% sobre rendimentos para pensionistas estrangeiros que transfiram a sua residência fiscal para lá, válida até quinze anos.

O processo não é totalmente isento de esforço, mas é claro. Candidata-se à residência, transfere-se a residência fiscal e, de repente, a aritmética muda. Uma pensão mensal de €1.500 rende mais numa cidade cretense do que no centro de Lisboa. Ainda se encontra um apartamento com vista para o mar em partes da Grécia continental pelo preço que hoje custa um estúdio no Algarve. Para muitos, só isso inclina a balança.

Pergunte-se a Marie, 69 anos, enfermeira francesa reformada que quase comprou um apartamento em Cascais em 2021. Adorou o ambiente, os cafés, a facilidade de voar para casa. Depois começou a comparar números. O T1 de sonho ali estava por €450.000. Numa localidade costeira do Peloponeso, um apartamento ligeiramente maior, com varanda e um vislumbre do mar, custava menos de €200.000.

Foi uma vez, depois duas. Na segunda viagem, o padeiro local lembrava-se do nome dela. Um vizinho convidou-a para café e koulouri caseiro. “Percebi que não precisava de restaurantes da moda”, ri-se. “Precisava de espaço no orçamento para surpresas.” Assinou na Grécia, não em Portugal. Hoje partilha fotos de mergulhos ao pôr do sol, enquanto os amigos em Lisboa mencionam discretamente aumentos de renda e dúvidas fiscais.

A proposta grega joga noutra frequência emocional. Portugal ficou conhecido por ser “cool”: nómadas digitais, cafés hipster, cultura de surf, chefs com estrelas Michelin. A Grécia aposta em algo mais à antiga: almoços longos, conversas sem pressa, vizinhos que aparecem com tomates da horta.

No lado financeiro, a taxa fixa de 7% para reformados estrangeiros é direta e tranquilizadora. Sem siglas complexas, sem regras a mudar depressa que só contabilistas compreendem por inteiro. Quem viveu o fim do RNH em Portugal viu amigos a correr para se adaptarem. Não quer repetir esse filme. Sejamos honestos: ninguém lê leis fiscais por diversão na reforma. A Grécia parece, por agora, um país a dizer: “Venham, fiquem, pensámos nisto por vocês.”

Escolher bem: mudanças práticas que os reformados estão a fazer

Os reformados que estão a sair discretamente de Portugal têm algo em comum: planeiam mais como migrantes do que como turistas. Já não se apaixonam pelo primeiro porto bonito. Passam um mês no inverno e outro na meia-estação. Falam com advogados locais, não apenas com agentes imobiliários.

Um número crescente junta-se a grupos de Facebook ou WhatsApp de pensionistas estrangeiros na Grécia, em Espanha ou até em países mais pequenos do Leste europeu. Fazem perguntas incómodas sobre hospitais, dentistas, tempestades e burocracia. Depois voltam ao básico: passeiam, sentam-se em bancos, observam quem está no mercado e quão cheia está a farmácia numa terça-feira de manhã. Um sítio pode parecer um paraíso no Instagram e, ainda assim, ser solitário na vida real.

A grande armadilha é perseguir um incentivo fiscal e esquecer o resto da vida. Uma taxa de imposto baixíssima não serve de nada se se sente isolado, não consegue comunicar com o médico ou teme os invernos. Muitos dos primeiros a adotar Portugal admitem que foram deslumbrados pelo sol e por blogues entusiasmados, e desvalorizaram as dores de cabeça administrativas. Alguns nunca aprenderam mais do que algumas frases em português e acabaram por viver numa bolha de expatriados.

Agora, quem viu isso acontecer tenta fazer o contrário. Marca aulas de língua antes de se mudar. Testa transportes públicos, não só táxis. Visita supermercados, não apenas mercados de peixe pitorescos. O dinheiro importa, mas também importa a sensação ao voltar para casa depois de escurecer, o som que chega à varanda, as caras que se reconhecem no café.

Um engenheiro neerlandês semi-reformado que conheci em Naxos resumiu bem, perante um prato de sardinhas grelhadas:

“Portugal foi o meu primeiro sonho. A Grécia é a minha segunda oportunidade de o fazer bem.”

Ele não saltou para o primeiro negócio. Manteve um caderno e, página a página, reduziu as necessidades reais a uma lista curta:

  • Acesso a cuidados médicos todo o ano, e não apenas uma clínica de verão
  • Internet fiável para manter contacto com a família
  • Ruas pedonais, para não depender de carro aos 80 anos
  • Um aeroporto local com pelo menos uma ou duas ligações internacionais
  • Renda (ou prestação) que ainda deixe dinheiro para pequenos prazeres

Não são critérios glamorosos. Mas são precisamente os que transformam uma fantasia soalheira em algo em que se pode envelhecer em paz.

O que a mudança de Portugal realmente diz sobre os sonhos da reforma

A história de Portugal perder algum brilho não é, na verdade, uma história de um país a falhar e outro a ganhar. É uma história sobre a rapidez com que os sonhos mudam quando os números deixam de bater certo. Há dez anos, a maioria dos europeus que se reformava no estrangeiro pensava em termos de “onde é bonito e seguro?”. Agora entrou uma segunda pergunta: “Onde consigo viver bem com um rendimento fixo, sem ansiedade constante?”

Os países continuarão a ajustar regimes fiscais, a atrair ou a travar reformados estrangeiros à medida que a política e os mercados de habitação evoluem. Os reformados continuarão a comparar, recalcular e, por vezes, a fazer as malas novamente. Essa inquietação diz algo desconfortável sobre o nosso tempo: a estabilidade é mais difícil de comprar do que um voo barato.

Ao mesmo tempo, esta migração silenciosa está a impor um tipo mais profundo de honestidade. Por trás de cada fotografia de Instagram de um pôr do sol sobre o Tejo ou o Egeu, há uma folha de Excel, uma lista de receitas médicas e, por vezes, uma noite solitária. Os lugares que realmente vencerão a longo prazo não serão apenas os mais cénicos - ou os mais generosos hoje - mas aqueles onde locais e recém-chegados conseguem partilhar as mesmas ruas sem ressentimento.

Portugal continua lindo. A Grécia continua frágil em muitos aspetos. Espanha, Itália e até a Croácia estão algures no mesmo mapa de esperanças e desilusões. A decisão real, para cada reformado, é menos “Que país está na moda agora?” e mais “Onde consigo construir uma vida pequena e comum que pareça minha?”

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
O apelo de Portugal está a mudar A subida de custos e o fim de benefícios fiscais generosos como o RNH estão a levar reformados a reavaliar Ajuda a perceber porque o antigo “sonho português” já não funciona automaticamente
A nova proposta da Grécia Taxa fixa de 7% sobre pensões estrangeiras e preços imobiliários mais baixos em muitas regiões Oferece uma alternativa concreta para comparar, para lá dos clichés turísticos
Como escolher com sabedoria Estadas de teste, foco na saúde, custos do dia a dia, comunidade e conforto a longo prazo Dá um quadro prático para avaliar qualquer destino de reforma com calma

FAQ:

  • Portugal continua a ser um bom sítio para se reformar? Sim. Para muitas pessoas continua atrativo pelo clima, segurança e estilo de vida, mas o aumento dos custos da habitação e regras fiscais menos generosas significam que já não oferece a mesma “pechincha” de há uma década.
  • Porque é que alguns reformados estão a escolher a Grécia? São atraídos por preços imobiliários mais baixos em muitas zonas, por uma taxa fixa simples de 7% sobre pensões estrangeiras e por um ritmo de vida mais lento que ainda parece autenticamente local.
  • A taxa grega de 7% sobre pensões está garantida para sempre? Não. Nenhum regime fiscal está garantido para sempre; as leis podem mudar. Por agora, está oficialmente em vigor, geralmente atribuída por até quinze anos, mas quem pondera mudar-se deve confirmar com um consultor fiscal qualificado antes de decidir.
  • Quanto é que preciso, na prática, para viver confortavelmente no sul da Europa? Varia muito consoante a região e o estilo de vida, mas muitos reformados referem precisar de pelo menos €1.300–€1.800 líquidos por mês para uma vida modesta mas confortável fora dos locais mais caros.
  • Qual é o maior erro que os reformados cometem ao escolher um país? Deixar-se levar pela sensação de férias e por incentivos fiscais sem testar a vida real: clima no inverno, acesso a cuidados de saúde, barreiras linguísticas e o custo real da habitação ao longo do tempo.

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